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terça-feira, 14 de junho de 2016

Uma breve história do futuro - 1

O conhecimento como era visto no passado era a transferência entre experiências entre indivíduos, que desenvolveram sua sabedoria a partir destas experiências. Em termos mais técnicos, quem detinha o conhecimento eram os chamados especialistas ou peritos. Nessa época a programação dos computadores buscava reproduzir o mecanismo de solução de problemas dos especialistas, da mesma forma como as pessoas faziam. Seja na forma de algoritmos, sequência de operações e decisões até se chegar a um resultado, podendo repetir-se em ciclos sucessivos até aproximar-se da solução. No entanto os modelos mentais utilizados nessa abordagem são complexos, pois os mecanismos humanos de resolução de problemas são fortemente baseados em ponderações de incertezas. Esses modelos mentais eram ineficazes em computadores.

A solução para este problema foi explorar a capacidade dos computadores e fazê-los interagir com o meio ou com os humanos. Esses programas de computador baseados em modelos de interação foram chamados de agentes inteligentes. Mais tarde os chamamos simplesmente de agentes. Os agentes são capazes de capturar a semântica do contexto e reutilizá-lo para resolver problemas ou simplesmente interagir. Os agentes não simulam um especialista humano, nem representam modelos humanos de conhecimento, são mais do que o mimetismo da inteligência humana. O conhecimento é de alguma forma representado no agente, e este irá aplicá-lo, ou armazená-lo para distribuí-lo, de uma forma inteligente e amigável com os humanos.

O conhecimento nada mais é do que resultado da experiência, uma versão adquirida do mundo real, mantida internamente por todos os seres humanos e eventualmente estendida por mecanismos de abstração próprios da mente (já dizia Piaget). De fato, o conhecimento é construído na mente que tenta capturar a realidade. Mas estados internos não necessariamente representam a realidade, mas guardam uma interpretação ou uma resposta a ela. Então o conhecimento é o padrão destes estados internos, cada um correspondendo a algum estado do universo. É o significado construído pela mente, um produto da mente, seja um estado inato ou aprendido, consciente ou inconsciente. Faz parte deste conhecimento a capacidade de discernir sua aplicação para lidar com os problemas do mundo. Cada pessoa produz o seu próprio conhecimento, percebe a realidade à sua maneira, e é capaz de aplicar seus conhecimentos para solucionar os problemas do seu interesse e dentro da sua capacidade. Assim, a capacidade, habilidade, perícia e sabedoria variam de pessoa para pessoa e enormemente. Dessa diversidade é formada a humanidade. A humanidade ou partes dela, como grupo, também tem o seu conhecimento, a sua percepção de realidade, a sua capacidade de resolver problemas, o que é demonstrado pelas diferentes vivências e decisões em cada país ou região do planeta.

Esses estados também podem ser construídos em computadores, tendo-se uma forma adequada de estruturá-los. Esses estados também correspondem a uma realidade externa, no entanto, utilizando símbolos definidos pela cognição humana, pela percepção de uma pessoa. Assim, a percepção do agente (computador) também será restrita à realidade e símbolos dessa pessoa, como são as próprias pessoas. Estas descrições simbólicas caracterizam os relacionamentos empíricos no domínio do agente, somado aos procedimentos para manipulação dessas descrições, tem-se o conhecimento do agente (Hayes-Roth, 1983). Assim a capacidade do agente em reconhecer os problemas do mundo e as possíveis estratégias que podem aplicadas em sua solução, bem como a capacidade de aprender com seus erros, será limitada por esse conjunto, assim como nos seres humanos. Num determinado domínio de conhecimento, por exemplo, a matemática, temos agentes com vários níveis de conhecimento - pré-definidos na sua estrutura simbólica, e que são orientados para o subdomínio de problemas que o agente poderá tratar.

Os engenheiros construtores dos agentes trabalham no modelo conceitual e na ontologia do domínio de trabalho do agente, de uma forma ainda similar ao que se fazia nos primórdios da inteligência artificial no final do século XX. Os modelos conceituais definem a utilidade do agente.
A grande diferença é que hoje não pensamos nos computadores, ou na inteligência artificial, como algo para resolver os maiores problemas do mundo. Os agentes não têm mais capacidade do que um humano comum. E sua serventia é para as coisas simples do dia a dia, como fornecer informações atualizadas sobre determinado assunto, por exemplo, esportes, clima, entretenimento. Ou fornecer informações científicas para uma equipe de cientistas, ou para professores e alunos na sala de aula. Ou fornecer informações técnicas para profissionais nas suas atividades, como mecânicos, eletricistas, projetistas e operadores de máquinas industriais. Ou gerenciar equipamentos em lojas de serviços, como lavanderias, padarias, mercados.

Assim, os agentes não são uma ameaça à inteligência humana como pensavam alguns cientistas e profissionais de tecnologia no início do século XXI.