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segunda-feira, 29 de junho de 2009

O caso do deputado paranaense, o perdão da dívida

De Ruth Bolognese no Paraná Online
Mais um desejo do que realidade, causou comoção e polêmica a frase do prefeito de Guarapuava, Fernando Ribas Carli, sobre a possibilidade do retorno do filho à política. Ele é pai do ex-deputado estadual Luiz Fernando Ribas Carli Filho, que renunciou ao mandato por causa do acidente de carro que causou, embriagado e em alta velocidade, e vitimou dois jovens em Curitiba.

Ato imediato à declaração do prefeito, a mãe Yared, que perdeu o filho Gilmar no acidente, ameaçou sair às ruas novamente e, desta vez, não para clamar por justiça, mas para protestar contra qualquer partido político que abra as portas para a filiação do ex-deputado. Luiz Fernando Ribas Carli Filho tem 26 anos, era o mais jovem, e o mais bonito deputado da Assembleia Legislativa do Paraná, herdeiro de uma família rica e de tradição no Paraná pelo lado materno e filho mais velho do deputado por várias legislaturas, ex-secretário de Estado e atual prefeito de uma das maiores cidades do Estado, Guarapuava. Nesta condição, era natural que seguisse a carreira do pai e tinha planos ousados para a política paranaense, quem sabe chegar ao Palácio Iguaçu ou ao Senado Federal.
O acidente na madrugada de maio atingiu-o em pleno rosto, quebrando a mandíbula e vários outros ossos e a última cirurgia deixou-lhe uma cicatriz ao redor de toda a cabeça. Mas não tem sequelas físicas ou neurais graves, continua jovem, rico e ainda é o herdeiro político da família. Circunstâncias que, certamente, levaram o pai a antecipar um projeto que deveria, por enquanto, permanecer no restrito círculo de parentes mais próximos e amigos.
Entre o ex-deputado Ribas Carli e seu retorno para a política, porém, existe um detalhe de fundamental importância, determinante até, para o sucesso ou o fracasso do objetivo: ele tem uma dívida a reparar com a sociedade, que começa no reconhecimento do erro, na aceitação da punição e, principalmente, no cumprimento da pena que a Justiça aplicar. Qualquer gesto, qualquer iniciativa de Carli Filho, e da família dele, que venha a amenizar, reduzir ou adiar os trâmites normais da Justiça, terá um efeito proporcionalmente devastador na retomada pretendida. Na verdade, tanto Carli Filho como a família dele, têm uma rara oportunidade de dar um exemplo aos jovens e à sociedade brasileira de que irresponsabilidades tão graves como beber e dirigir em alta velocidade têm consequências trágicas, tanto para as vítimas como para o culpado. Para que o exemplo se revele em toda a sua extensão, perder um mandato não basta. Nem a marca das cicatrizes na face. Assim como, cumprir uma pena alternativa (como é comum em casos como esse), será prova inconteste do privilégio.
Contratação, pela família, de perícias paralelas às oficiais, por exemplo, já apontam para a busca de atenuantes. Se quiser retomar a vida e a política, é preciso que o jovem Ribas Carli se submeta, publicamente, como qualquer cidadão, às leis brasileiras para o trânsito, cumpra com serenidade a pena mais severa, sem apelações ou recursos judiciais. Para isso, a família teria que vencer o instinto básico da autoproteção, e ele, abandonar o salvo-conduto da elite à qual pertence. São atitudes cruciais, de difícil execução, mas elementares no amadurecimento tanto de uma família, como de um jovem e até de uma sociedade inteira. Em tempos em que a política se apresenta aos nossos olhos como a arte deliberada da falcatrua, dos favorecimentos a parentes e amigos, do uso do poder em benefício próprio, talvez se possa começar a grande, e necessária, faxina com seus integrantes respondendo, primeiro, pelos seus atos como cidadãos comuns.